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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (2)

12.04.19

Vou, caro leitor, paulatinamente dando sequência à reposição das cartas do (futuro) Barão de Forrester. Contrariamente ao que modo que usei na publicação original no blogspot - i. é, uma publicação por carta - opto por de agora em diante colocar duas cartas em cada publicação. E isto tem duas razões: primeiro para não arrastar no tempo algo que com o decorrer do mesmo tornará sem importância a sua subdivisão; a segunda, que refreia o facto de não colocar de uma vez só um bloco de 3, 4 ou 5 cartas, para que a leitura delas se mantenha prazerosa e não pesarosa. Prossigamos então:

 

*

SEGUNDA CARTA

(20 de Setembro)

«Logo ao amanhecer continuamos a nossa viagem – mas depois de grande trabalho da parte da tripulação que andou na água a levantar o barco para poder passar no seco da Varjiela, e custou-nos a chegar a Melres, levando-nos três horas a andar esta pequena distância de meia légoa! Defronte deste povo almoçamos, e durante este descanço podemos notar que o sítio abunda em férteis campos, lenhas, cortiça, laranja e vinho, com tudo isso parece que os habitantes não gozam da maior prosperidade. As habitações são miseráveis e não há entre elas uma única casa que se possa supor pertencer a lavrador abastado. Esta circunstancia é mais notável em razão da benignidade do clima que faz que as terras produzam quase espontâneamente, e dos habitantes não precisarem fazer grande despesa com o seu sustento e vestuário. Os homens apenas trazem calças, colete e camisa – as mulheres contentam-se com uma saia, camisa e colete, e as crianças – rapazes e raparigas, até à idade de 8 ou 9 anos, andam só com camisinha, aqueles que a tem.

 

Entre o Carvoeiro e Melres passamos na margem esquerda do rio o povo de Pé da Moura, sendo este o extremo ponto onde chega a maré e de onde a maior força da carqueja é remetida ao Porto. É curioso notar a direcção que nestes sítios toma o rio, porque principando em Lombeiro de Atães e acabando em Pédorido e Rio Mau, um quarto de légua adiante de Melres, descreve o perfil de uma cara de homem. Ao meio dia o calor era tanto, marcando o termómetro 123 graus[1], e a atmosfera tão abafada, que não tivemos remédio senão dar à nossa tripulação três horas de descanço no areio d’hortos, ao pé do ribeiro da Raiva; mas depois o vento favoreceu-nos e podemos chegar à noitinha a Fontelas.

 

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o Douro e o Tâmega em Entre-os-Rios, ao fundo a malograda ponte Hintze Ribeiro, construída já após o tempo do Barão de Forrester. Notar o fraco caudal do rio Douro que ainda assim, apesar de segundo em extensão, é o mais caudaloso da Península Ibérica

 

As vistas de ambas as margens são belíssimas, porém são poucos os povos e o seu estado em nada difere daquele que acabamos de descrever. Há bastantes oliveiras e sobreiros desde Pé Doirido até defronte d’Entre –Ambos-os-Rios, onde o Tâmega desemboca no Douro. A perspectiva pelo vale do Tâmega é mui bela, quanto à natureza; porém é lastimoso notar-se que nem pelo rio nem por terra tenha a arte ajudado a aumentar os meios de comunicação com o interior do país, nem mesmo com Canaveses e muito menos com a importante vila de Amarante por onde o rio passa. Em Entre-os-Rios tem aparecido bastantes vestigios dos romanos, e tanto neste povo como em Canaveses há caldas e águas férreas que deviam talvez ser de bastante estimação se houvesse comodidade que chamasse a gente a frequenta-las. Neste sitio havia registo, pela antiga Companhia[2], de todos os barcos que iam para o Porto.

 

Castelo de Paiva é uma terra insignificante, mas de um aspecto muito romântico, sendo a origem do seu nome a ilha de rochedos pitorescos no meio do rio em frente da povoação. O rio Paiva é abundante em peixeis, especialmente trutas. Nos tempos feudais quando os senhores recebiam os foros dos caseiros e tinham direito de pesca em certas estações do ano, além das galinhas que lhes foram dadas para merenda, era forçoso até fornecer-lhes o trovisco. Entre os povos mais afamados naqueles tempos, o Castelo de Paiva, não era o menos importante pelas suas pescarias de trovisco, conforme o que coligímos de vários escritores, e apesar da pesca de trovisco ser, por lei, de há muito proibida, neste povo de Castelo de Paiva ainda continuam a pagar-se muitos foros em galinhas, aplicadas em outras áreas para as merendas da pesca de trovisco. Nos arredores de Paiva, fabrica-se grande quantidade de carvão de choça que se vende na cidade.

 

Tenho deplorado o estado de miséria em que parecem achar-se todos os povos que passamos entre o Porto e este sítio – agora acrescentarei que nos intervalos que medeia entre um povo e outro, não se encontra nem gente, nem gado, nem rebanhos, parecendo um país não habitado: ao mesmo tempo que cada passo aparecem deliciosos sítios a convidar o homem de gosto a ir para ali estabelecer o seu domicílio.

Sou de VV. & c.

J. J. Forrester»

 

*

TERCEIRA CARTA

(20 de Setembro)

«A digressão de hoje foi de três léguas desde Fontelas até Porto Manso. O vento foi favorável de tarde, e poderíamos ter feito maior jornada se não nos tivessem extasiado as belíssimas vistas por toda a extensão do rio, as quais se fossem conhecidas pelos artistas dos países do norte, chamariam metade do mundo viajante para admirar estas belezas, infelizmente ignoradas no seu próprio país. É verdade que são em muitos sítios os enormes rochedos que apresentam os primeiros planos aos quadros que desejáramos ver pintados; e como o governo de S.M.F. decretou que daqui em diante uma certa soma será aplicada para demolir estes obstáculos para a livre navegação do Douro, - se os viajantes se não apressarem a cá vir por estes primeiros meses, poderá ser que, pelo ano que vem, a marcha da civilização destrua os principais objectos de gosto artístico que a mim, que os tenho admirado mais do que outros quaisquer que tenho visto, ainda me chamam como em peregrinação três vezes por ano.

 

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paisagem anterior às barragens, que nos demonstra visualmente os perigos do Douro antes do desbaste dos grandes penedos que muitas vezes eram causa de uma tragédia humana. Ainda assim o que se pode ver parece já não ser um aspeto inteiramente natural do rio, antes algo transformada pelos homens(?)


Na marca atual do rio, que é talvez a mais baixa de que os práticos se lembram, até Porto Manso não há pontos nem galeiras ainda que nos pontos da Retorta, do Colo, Tojal e Escarnida não deixam de fazer sua corrente que bastante embaraço causa à navegação quando não há vento, de meia vela a favor, porque em caso contrário seria indispensável empregar gente ou bois para alar os barcos nestes pontos. No ponto da Retorta, logo acima do Convento de Alpendorada, havia um rochedo enorme que por mais de vinte anos era muito nosso conhecido, e tão alto era ele que os boieiros para cambarem o cabo por cima, precisavam de uma escada de 14 degraus: chamava-se o Penedo do Corvo.


Ultimamente, no ano passado foi em parte demolido; porém em 1853 o Verão foi sempre chuvoso e conservou-se muita água no rio – agora em 1854 o litoral está à vista – Que bela ocasião para os engenheiros do Governo completarem a sua obra, desfazendo mais uns cinco palmos que ainda tem o calhau, para assim facilitar a passagem dos barcos com setenta pipas com a marca do Pinhão, sem serem obrigados a desviarem-se dos restos do penedo tomando outro rumo, pelo qual correm o risco de quebrarem-se na pedra da Retorta! Nos pontos de Valvela e Couces de Vimeiro, observei umas pedras quebradas por cima, com a evidente tenção de formar em cada um dos sítios um canal para passarem os barcos em certa marca do rio, que é das águas do Tua; porém, ficando estas obras como estão, receio que a navegação não tire muita vantagem delas.


Os povos, que hoje passamos, foram, na margem direita: Vimeiro terra dos arrais de matriz e trasfegueiros – tem muito boas casinhas – reina grande atividade no cais – toda a gente parece ter que fazer e vivem muito bem. Este povo forma um grande contraste com todos os mais que temos visto do Porto para cá. Antigamente a Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro tinha aqui o seu comissário e grandes armazéns; e nenhum arrais passava daquele sítio para baixo sem receber as suas ordens. Lavadouro também é terra dos arrais, mas é um povo mui pequeno. Pala igualmente é terra de arrais e lavradores – todos abastados, que vivem tão bem como os do Vimeiro. Porto Manso é um povo de bastante importância e onde se encontram os arrais mais relacionados com o grande comércio de vinhos do Porto. Há ali boas casas, boa e rica gente, e o sítio é delicioso e mui produtivo. Na margem esquerda apenas há os pequenos povos de Souto do Rio e Porto Antigo, sítios mui pitorescos, e onde se carrega a maior parte das madeiras de castanho que vão para a cidade do Porto. Pode-se calcular, sem exageração, em 20 mil os paus, pés e pontas de castanheiros, que são carregados neste cais todos os anos.

Sou de VV. & c.

J. J. Forrester»

 

1- Se esta gradação se referir à escala Fahrenheit, estaremos a falar de cerca de 50ºC, o que parece manifestamente exagerado.

2 - Fundada em 1756 e conhecida hoje pelo nome de Real Companhia Velha.

 

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Originalmente publicadas no blogspot em 24.03.2013 e 02.05.2013