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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (7)

04.06.19

Chega hoje ao cabo a republicação das cartas de Joseph James Forrester que em 2013 pretendi dar a conhecer através deste meio poderosíssimo que é a web, que a todos a todo o lado consegue chegar. Esta carta surge separada uma vez que ela já não trata propriamente da viagem ao Douro; antes ocupa a substância das suas linhas com assuntos ainda mais pessoais do Barão...

 

Não termino contudo sem revelar que, quando em 10 de abril (ver aqui), refletia: «Estas cartas do Barão de Forrester estariam inéditas até eu as ter redescoberto em 2013? Não o posso dizer, embora acredite que não». E de facto não, não estavam! Estas cartas foram - pelo menos - publicas em 2005 neste trabalho de Norman R. Bennett que convido o leitor interessado a ler pois não só as transcreve, como igualmente nos revela mais pormenores sobre esta personagem, os ingleses que negociavam no vinho, e sobre o próprio Douro[1].

 

 

*

«DUODÉCIMA CARTA

Assim como até aqui me tenho entretido como que de uma vida irregular, escrevendo acerca das pedras do Douro, acomodações de estalagens, etc, etc, assim também passarei agora a dizer uma ou duas palavras sobre um objeto que grave impressão me tem causado pelas terras por onde tenho passado: refiro-me a certas casas, geralmente muito mal construídas, mas sempre em lugares mais públicos, e com as janelas au rez de chaussès, junto das quais geralmente se vê bastante gente, congregada, falando e divertindo-se como romeiros em dia de festa. Estas casas, Sr. Redator, são as cadeias, para onde, de certo, não vai gente que tenha praticado boas ações; contudo, se o objeto de uma prisão é castigar os culpados, e o do castigo é corrigi-los, parecem-me muito fora de razão que sejam dados aos povos, semelhantes maus exemplos como estes a que me refiro; porque, em muitos sítios, longe de ser castigo, os presos vivem, só com a diferença de não terem a sua liberdade, melhor e em maior abundância que jamais conheceram, simplesmente porque pertencem a alguém destes povos de aldeia, como parentes ou compadres que também têm os seus; de sorte que uma espécie de maçonaria ou fraternidade existem entre eles, e a confraria é quem os sustenta.

 

Dizem, - mas eu como viajante não posso dizer se é verdade, - que estes estabelecimentos são só privilégio dos pobres; e que até, por muitos e sucessivos anos, gozam deste mesmo privilégio, ou por esquecimento, ou porque nenhuma despesa fazem ao Estado; mas, ainda assim, frequentes vezes acontece que no meio do seu regozijo e repentinamente aparece uma ordem não de soltura, mas para que, ligados uns aos outros, vão seguindo caminho do Porto ou Lisboa, para cumprirem o degredo, expiarem as últimas penas.

 

Eu não me acho com forças, nem a ocasião é própria, para entrar deveras neste assunto; contudo, na cadeia da Relação da cidade do Porto, acontece quase o mesmo, e em muito maior escala, quanto ao edifício, mas não quanto aos confortos em razão da ausência dos parentes. Aqui consta que há também inquilinos de muitos anos, que ocupam, segundo os anos de serviço, diversas graduações; e que seu chairman (desculpe o termo inglês por não saber o termo técnico) tem muita autoridade, e os seus decretos tem força de lei; e de certo, são rigorosamente cumpridos, e com maior presteza, que costumam os empregados legais. Não digo isto para ofender repartição pública alguma; porque é bem sabido que nenhuma tem a obrigação de trabalhar dia e noite, como pratica a clientela do dito chairman.

 

Haverá quem diga que eu sou um estrangeiro muito perverso, e que agora abuso da hospitalidade dos dignos portugueses, fazendo estas minhas críticas, da mesma forma que, quando me atacaram na época em que falei nos vinhos do Porto; e quando mereci o lisonjeiro epíteto de ser uma "ave estranha num país estrangeiro". Porém, Sr. Redator, já estou muito velho e à prova de bomba; não me intimidam quando eu trato de fazer bem ao país que amo como meu. Vou contar-lhe uma história que tem seus visos de romance; mas nem por isso deixa de ser menos verdadeira.

 

Quando habitei a casa na Ramada Alta atualmente ocupada pelo patriótico e filantropo (termo de que me sirvo em lugar de Ilmo. e Exmo.) visconde da Trindade, tinha um relógio de mesa muito lindo, de três e meio palmos de altura, sendo o assunto um preto segurando um cavalo bravo e fogoso. Quando saía da minha casa pela manhã, e voltava à noite, costumava sempre conferir o meu relógio de algibeiria com aquele; mas aconteceu-me um dia, que, voltando a casa, dei pela falta do relógio, manga de vidro, preto, e cavalo branco, e até a própria chave. Em vão, pergunto a minha mulher, filhos e criados, pela falta; mas ninguém me podia esclarecer o negócio; porém tendo motivos de suspeitar de algumas pessoas, relacionadas com os criados, paguei a cada um deles um mês adiantado, e mostrei-lhes a porta. Foi justamente, Sr. Redator, nesta ocasião que alguém me falou na bela organização do corpo dos ladrões na cidade do Porto, debaixo da autoridade do ladrão-mor a que acima me referi.

 

Mandei falar a este potentado por eu não ter a honra de o conhecer pessoalmente, remetendo-lhe os sinais do objeto roubado, e contando-lhe todas as circunstâncias do roubo. Recebi logo um recado verbal mui atencioso, já se sabe, no estilo de - "fulano faz os seus cumprimentos a sicrano, &c; e logo que possa, dará conta da sua missão": Com efeito - na mesma noite uma pessoa mui bem trajada, com hábito de Cristo ao peito, me procurou em casa; e tal era a sua presença de respeitabilidade, que o meu novo criado sem hesitação alguma o encaminhou à minha sala de visitas, pondo as competentes velas de cera; e apresentando-lhe uma cadeira, convidou-o a assentar-se em quanto que vinha ao meu gabinete chamar-me. Pode bem imaginar-se a minha surpresa, quando entrei na sala, e depois da devida troca de cumprimentos, o cavaleiro hóspede participou-me que era o embaixador do Ilmo. ladrão mor da cadeia; e que vinha, da sua parte, para assegurar-me que o roubador não tinha sido nenhum membro da honrada profissão a que ele presidia, aliás com muito gosto me teria sido já restituído o relógio.

 

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Joseph James Forrester, ou como melhor é conhecido, o Barão de Forrester (27.05.1809 - 12.05.1861)

 

Agradeci, como era de supor, a finesa do cavaleiro e lhe retribui os cumprimentos da personagem que ele vinha representar. Confesso, porém, que enquanto o meu criado o acompanhava até à porta, passei um golpe de vista por toda a sala para verificar se, com efeito, mais alguma outra redoma me faltava.

 

Publiquei anúncios nas gazetas, oferecendo alvissaras de 6 moedas a quem me desse notícias do meu pobre cavalo branco, e seu condutor africano. Em seguida veio um adeleiro convidar-me para ir ver um relógio muito bonito que ele - que não tinha visto os anúncios - julgava poder servir-me, dando ao mesmo tempo uma descrição exatíssima do objeto.

 

Acompanhado por um amigo, segui o adeleiro até uma casa na rua de....... na cidade baixa; entrei numa loja onde estava a conversar uma mulher de mantilha com o dono: não reparei muito neste mulher no momento da entrada; mas vi sobre o mostrador 3 montes a 2 moedas em que ela pegou sem as contar, metendo-as num lenço, e saindo precipitadamente. A quantia do dinheiro por ser aquele que eu tinha oferecido de alvissaras, fez que eu, ainda que tarde, lançasse os olhos após a mulher; e não pude deixar de pensar que eu a tinha visto em diferentes ocasiões, falando com os meus criados.

 

O lojista não me conhecia; e eu também nada lhe disse do fim da minha visita. O adeleiro disse-lhe que eu era muito tentado com objetos de gosto, e queria ver a sua coleção. Levou-nos para uma sala no 1º andar; e logo que entrei, vi numa prateleira entre ricos vasos de porcelana e outros objetos, o meu cavalinho com todos os mais aprestes. O bom do homem abriu as suas gavetas, e caixa-forte; em poucos momentos cobriu a mesa de pulseiras, cordões de ouro, alfinetes de peito, tiaras e aneis de brilhantes, e um sem número de condecorações. E em várias outras partes da sala apontou toda a qualidade de roupa feita, e alguns lenços de seda pendurados sobre uma corda que comunicava com uma campainha fora da porta.

 

Logo conheci que eu estava no atelier de um ladrão de profissão; cujos discípulos eram ensaiados neste recinto, praticando a gíria de furtar lenços sem serem pressentidos, sendo o grau de perfeição na arte o poder tirar um destes lenços da corda solta sem tocar a campainha.

 

Nestas alturas tirei da algibeira o Periódico dos Pobres, e mostrei o meu anúncio ao professor da arte ligeira. Ele mudou de cor, e deu um passo para a porta; porém intercetei-lhe a retirada, e em poucas palavras, mas com muita firmeza, reclamei o que me pertencia. Pranteou, - suplicou perdão, - protestou a sua inocência, dizendo que não lhe era possível saber de onde vinham os objetos que lhe ofereciam à venda, ou em penhor; - que não conhecia quem lhe tinha trazido o relógio; e que muito sentia não ter visto o anúncio, porque no momento da minha entrada na sua loja, a mulher que dias antes havia trazido o objeto roubado, estava neste ato levando as 6 moedas, preço que lhe tinha custado. Continuou a jurar que nada sabia do furto, mas acrescentando que, visto que o objeto era meu - conhecia ser da sua obrigação entregar-mo; o que com efeito fez dentro de meia hora.

 

Como vi que não era possível descobrir o modo engenhoso, com que o relógio tinha sido roubado de minha casa, forçoso foi que me contentasse com a sua restituição, sem ulterior procedimento; mas - quando cheguei a casa, e principiei a dar corda ao relógio reparei que a fábrica tinha sido atada com um bocadinho de retrós de seda verde, que havia sido tirada da pequena mesa de costura que estava no outro lado da sala - operação esta que decerto não foi feita no momento, e que tinha por fim evitar que o relógio desse horas durante a mudança. Este facto deixou suspeitas sobre mais de um indivíduo; e será força de imaginação, mas é facto, que quando eu passo por certa rua muito estreita que conduz ao postigo do Sol, uma mulher, que julgo ser a mesma que eu tinha visto recebendo o dinheiro na loja de que já falei, - logo que me avista, retira-se para dentro de casa.

 

Tenha paciência, Sr. redactor, com esta massada - mas estas reflexões são consequência da prisão voluntária a que me votei na minha barquinha, e da minha imaginação precisar de distração. Porém o remédio está na sua mão e não gostando do que tenho escrito, remédio será queimar esta carta.

 

Agora falemos sério. Sentirei, Sr. Redator, se eu nesta narração entrar em seara alheia; por isso que sei que o meu amigo Sr. José Frutuoso Aires Gouveia Osório, doutor pela universidade de Coimbra, e Edimburgo, nas suas viagens à Inglaterra, França, Bélgica, e países do norte, estudou teórica e praticamente a organização das prisões. Desejava muito perguntar a este meu amigo, por que motivo não tem ainda publicado as suas observações àquele respeito. Será, por acaso, que ele, também[2] como eu, tenha pedido estatísticas, sobre o assunto a algum ministro de estado, e as não tenha recebido, depois de lhas prometerem? Quem sabe!


Sou de VV.

J. J. Forrester»

*

 

1- Tive conhecimento deste trabalho quando fazia a segunda republicação destas cartas, ainda assim optei por esperar pela última por crer ser o tempo mais oportuno para o divulgar. 

2 - No original tãobem.

 

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Publicado originalmente na antiga casa d' A Porta Nobre em 14.07.2013.

 

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